Péricles Prade

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Péricles Prade

Durante a rajada de vento vejo o que surge
no espelho da penteadeira à minha frente:
no espelho eu sou apenas o que sobrou de um náufrago no istmo de Wu,
istmo que fica na parte setentrional da Villa Marítima de Narayama.
Só vejo o que surge muito perto de mim:
por exemplo, sobre a pianola,
flagro o verme surdo que decompõe a tristíssima sonata
impressa numa partitura do século 18.
Porque a rajada de vento abriu as venezianas do quarto de dormir,
o espelho da penteadeira imita a rajada de vento.

O espelho do presente

Enquanto lia Os Dias que Foram e os que Ainda Não Vieram, de Roberta Cavalcanti, uma imagem me acompanhava silenciosamente: a de um espelho. Um espelho é um objeto curioso — ele nunca nos permite olhar para o passado nem para o futuro. Diante dele, só existe o instante que acontece agora. O reflexo não guarda memória nem faz promessas. Ele apenas devolve o presente.

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Letra Empunho: escrever também é um modo de agir

Letra Empunho é um livro que toma a palavra como gesto. Publicado em 2025, o volume reúne cerca de uma centena de poemas curtos e médios que exploram a escrita como ação — como empunhadura simbólica da linguagem, capaz de tensionar identidade, corpo e posicionamento no mundo. O título já anuncia essa dupla dimensão: escrever é, também, um modo de agir.

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