Letra Empunho, de Gustavo Florêncio Fernandes

(Editora Patuá, 2025)
Letra Empunho é um livro que toma a palavra como gesto. Publicado em 2025, o volume reúne cerca de uma centena de poemas curtos e médios que exploram a escrita como ação — como empunhadura simbólica da linguagem, capaz de tensionar identidade, corpo e posicionamento no mundo. O título já anuncia essa dupla dimensão: escrever é, também, um modo de agir.
Formalmente, a obra se ancora de maneira clara na tradição da poesia concreta brasileira, desenvolvida a partir da década de 1960 por Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari. O uso do espaço gráfico, da condensação verbal, do ritmo e da visualidade da palavra coloca o livro em diálogo direto com esse legado modernista, assumindo conscientemente seus procedimentos e limites.
Nesse sentido, Letra Empunho não se propõe a uma ruptura formal nem a uma reinvenção radical da poesia concreta. A experimentação apresentada já está amplamente mapeada pela tradição que a originou. O interesse do livro não reside na novidade estrutural, mas na forma como esses recursos são reativados em chave contemporânea, com ênfase na comunicabilidade e no prazer do jogo linguístico.
Os poemas funcionam como pequenas engrenagens verbais, quase enigmas, que convidam o leitor à participação ativa. Há humor, ironia e um evidente gosto pela desmontagem e recomposição do sentido. A leitura flui com leveza e rapidez, afastando-se do hermetismo que marcou parte da produção concreta original. Quando menos se espera, o texto provoca riso, deslocamento ou surpresa — efeitos que reforçam o caráter lúdico da obra.
Ao mesmo tempo, Letra Empunho articula lirismo e reflexão social. Imagens ligadas ao corpo, à escrita, à luta e à afirmação identitária atravessam os poemas, sugerindo um engajamento político que não se impõe de forma panfletária. A palavra empunhada aparece como instrumento de resistência simbólica, em diálogo com questões contemporâneas de poder, gênero, subjetividade e pertencimento, ainda que esses temas surjam mais como tensão de fundo do que como eixo discursivo explícito.
A estrutura do livro, organizada em seções, sugere um percurso que vai do conflito à afirmação, reforçando a ideia da escrita como ferramenta de transformação. Os recursos visuais e rítmicos intensificam a fisicalidade do texto, aproximando palavra e gesto e conferindo ao livro uma dinâmica quase performática, com ecos de spoken word e da poesia urbana contemporânea.
Letra Empunho não amplia os limites da poesia concreta, mas reafirma sua vitalidade como linguagem ainda capaz de gerar prazer estético, humor e engajamento. Seu mérito está na escolha pela leveza e pela comunicação direta, conciliando experimentação formal e acessibilidade. Trata-se menos de um livro de ruptura e mais de um exercício consciente de permanência: a palavra em estado de jogo, empunhada não para ferir, mas para provocar, deslocar e afirmar.
Marisa Rodrigues
Jornalista, poeta e editora
Portal Prato de Cerejas


