Resenha crítica por Marisa Sevilha Rodrigues

Há livros que projetam o futuro.
E há livros que iluminam o presente com a força de um futuro possível.
O Mundo Sem Eles, de Katia Kreutz, pertence a essa segunda categoria.
A narrativa se passa num século que se estende até o ano 2100, quando a Terra se aproxima de um colapso definitivo — fruto de pandemias, tragédias climáticas e um modelo civilizatório que, em sua ânsia de progresso, devastou os próprios alicerces que sustentavam a vida humana.
Nesse cenário, acompanhamos Eva, uma cientista negra em busca de seu pai, o também cientista Jonas Eizemberger, desaparecido após um atentado em seu laboratório. Eva atravessa um planeta ferido, mas a jornada que empreende não é apenas geográfica. É interior, filosófica, ética. É o questionamento radical de tudo aquilo que a humanidade acreditou ser inabalável.
Ao escolher uma protagonista negra e cientista, Katia Kreutz desloca o eixo da ficção especulativa tradicional e constrói uma personagem cuja força não se dá por heroísmo, mas por lucidez.
Eva carrega a vulnerabilidade da espécie humana — e, ao mesmo tempo, sua potência de reinvenção.
Sua busca pelo pai funciona como motor narrativo, mas representa, simbolicamente, uma busca por legado, afeto, identidade e pertencimento num mundo que perdeu suas referências éticas e emocionais.
Sem oferecer spoilers, é impossível ignorar a figura de Téo, o enigmático companheiro de jornada que surge na travessia de Eva.
Téo não é mentor, salvador ou guia.
Ele não explica — ele transforma.
É presença que desloca.
É encontro que ressignifica.
É um espelho que devolve à protagonista aquilo que o mundo devastado tenta apagar: a capacidade de sentir, confiar e se relacionar, mesmo em meio ao colapso.
Na arquitetura narrativa, Téo cumpre o papel do “aliado inesperado” das jornadas míticas — mas desconstruído, humanizado, delicado e carregado de camadas simbólicas.
O romance ecoa a estrutura da Jornada do Herói, mas a subverte.
Eva não busca glória, nem redenção coletiva.
Ela busca compreensão.
A travessia não é épica: é íntima.
Não é sobre destruir monstros, mas sobre reconhecer feridas.
Nesse sentido, Katia Kreutz reinventa o arquétipo clássico e aproxima o livro de uma Jornada da Heroína expandida, onde o aprofundamento emocional e ético é tão ou mais importante que a ação.
O romance articula uma crítica contundente ao capitalismo tardio, à exploração predatória dos recursos naturais e à crença de que a tecnologia, por si só, resolverá os desastres que ela mesma ajudou a criar.
A Terra do livro é um retrato exagerado — e, ao mesmo tempo, assustadoramente plausível — de um planeta que não suportou a imprudência da espécie humana.
Marte aparece não como promessa utópica, mas como dilema político: quem realmente terá lugar nessa “segunda chance”?
O Mundo Sem Eles não entrega respostas.
Entrega perguntas — e das mais urgentes.
Eva representa a lucidez.
Téo, a possibilidade do encontro.
O mundo devastado, o espelho do nosso tempo.
É ficção científica.
É distopia.
É poesia em ruínas.
É, acima de tudo, um convite para repensarmos o que estamos construindo — e o que estamos perdendo — como civilização.
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Serviço: Livro: O Mundo Sem Eles
Autora: Katia Kreutz
Gênero: Ficção Científica / Distopia
Editora: LitteraluxAno: 2025
À venda: Amazon (O mundo sem eles | Amazon.com.br)
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