O NAUFRÁGIO DO NAVIO PRESIDENTE VARGAS

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O NAUFRÁGIO DO NAVIO PRESIDENTE VARGAS

Por Marisa Sevilha Rodrigues

“Talvez o maior mérito desta obra não esteja no naufrágio que narra, mas na geografia humana que revela.”

O navio afunda.

Mas quem emerge das águas são as mulheres do Marajó, os pescadores, as lendas, os encantados, a solidão amazônica e um Brasil que raramente aparece nos jornais, nos romances ou nos debates nacionais.

É exatamente isso que acontece durante a leitura de O Naufrágio do Navio Presidente Vargas, de Rosieli Mendes Cruz.

À primeira vista, o livro parece propor uma narrativa centrada em um dos episódios mais marcantes da história fluvial brasileira: o afundamento do Presidente Vargas, embarcação que, décadas depois da tragédia, continua alimentando o imaginário popular da Amazônia. A autora conduz o leitor por sucessivas tentativas de resgate do navio, descrevendo expedições, buscas e esforços que mobilizaram curiosos, autoridades e moradores da região.

E funciona.

A cada nova tentativa, nasce a expectativa de que, desta vez, o casco finalmente volte à superfície. O leitor acompanha a preparação das buscas com uma mistura de esperança e ansiedade, desejando que o mistério seja enfim solucionado.

Mas isso nunca acontece.

O navio permanece no fundo das águas. Entretanto, algo muito mais interessante emerge à superfície. As redes lançadas ao rio não retornam trazendo o Presidente Vargas. Em vez disso, voltam carregadas de estórias. Estórias de homens e mulheres que sonharam conhecer seus salões, caminhar por seus corredores ou contemplar a paisagem amazônica a partir de seu convés, mas que jamais tiveram acesso a esse universo reservado às classes mais favorecidas da época.

Estórias de pescadores que cresceram ouvindo relatos sobre o naufrágio.

Estórias de mães que criaram seus filhos sozinhas.

Estórias de meninas que se tornaram mulheres cedo demais.

Estórias de comunidades inteiras vivendo em regiões onde a distância dos grandes centros significa também distância de serviços básicos, oportunidades e visibilidade.

Pouco a pouco, o navio deixa de ser apenas uma embarcação desaparecida para transformar-se em símbolo.

Um símbolo de ausência.

De memória.

De pertencimento.

E, também, de imaginação.

Um dos aspectos mais interessantes do livro é justamente a forma como Rosieli Mendes Cruz incorpora ao enredo o rico universo das encantarias amazônicas. O casco submerso torna-se morada de seres misteriosos, cenário de lendas e fonte permanente de narrativas transmitidas de geração em geração. A fronteira entre realidade e fantasia dissolve-se naturalmente, como costuma acontecer nas culturas moldadas pela tradição oral.

Nesse sentido, o Presidente Vargas parece existir simultaneamente em dois lugares: no fundo do rio e na superfície da imaginação coletiva. Ao escolher contar essa estória a partir da perspectiva dos moradores do Marajó, a autora realiza um movimento importante. Mais do que recuperar um episódio histórico, ela oferece visibilidade a personagens e comunidades que raramente ocupam o centro das narrativas nacionais.

O leitor descobre não apenas um naufrágio, mas uma região.

Não apenas uma tragédia, mas uma cultura.

Não apenas um navio perdido, mas um conjunto de vozes que insistem em permanecer vivas apesar do isolamento geográfico, das dificuldades econômicas e da invisibilidade social. Ao final da leitura, fica a impressão de que o verdadeiro tesouro procurado nunca foi o navio.

Talvez o Presidente Vargas precise continuar onde está.

Porque seu casco submerso segue produzindo aquilo que nenhuma operação de resgate conseguiria recuperar: estórias pessoais e a história de um povoado, de um lugar no tempo e no espaço amazônico, que, a partir dessa narração, começam a ganhar um sinal geográfico no mapa de um país chamado Brasil.

E são elas, as estórias e a história, afinal, que emergem das águas para permanecer…

Sobre a autora

Rosieli Mendes Cruz nasceu em Cachoeira do Arari, na Ilha do Marajó, Pará, e vive atualmente em Soure. É graduada em Letras pela Universidade Federal do Pará e atua profissionalmente no setor bancário. Escritora marajoara, participou de diversas antologias literárias e tem sua produção fortemente vinculada às paisagens, à cultura e ao imaginário amazônico. Entre suas obras destacam-se Os Filhos do Boto e O Naufrágio do Navio Presidente Vargas e Outras Memórias, trabalhos que contribuem para ampliar a presença da literatura produzida na região Norte no cenário nacional.

Serviço

Livro: O Naufrágio do Navio Presidente Vargas e Outras Memórias
Autora: Rosieli Mendes Cruz
Editora: Editora Folheando
Gênero: Romance histórico / Ficção regional amazônica
Onde encontrar: disponível no site da editora e em livrarias online, como a Amazon

O NAUFRÁGIO DO NAVIO PRESIDENTE VARGAS

O navio afunda.

Mas quem emerge das águas são as mulheres do Marajó, os pescadores, as lendas, os encantados, a solidão amazônica e um Brasil que raramente aparece nos jornais, nos romances ou nos debates nacionais.

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