Pequeno ensaio literário sobre Os Dias que Foram e os que Ainda Não Vieram, de Roberta Cavalcanti
Por Marisa Sevilha Rodrigues

Enquanto lia Os Dias que Foram e os que Ainda Não Vieram, de Roberta Cavalcanti, uma imagem me acompanhava silenciosamente: a de um espelho. Um espelho é um objeto curioso — ele nunca nos permite olhar para o passado nem para o futuro. Diante dele, só existe o instante que acontece agora. O reflexo não guarda memória nem faz promessas. Ele apenas devolve o presente.
Talvez seja justamente esse o gesto que atravessa o livro. Seus textos breves parecem funcionar como pequenos espelhos espalhados pelo caminho da leitura. Cada fragmento captura um instante mínimo — um pensamento, uma sensação, um detalhe do cotidiano — e o coloca diante de nós com a limpidez de quem revela algo que sempre esteve ali, mas que raramente paramos para observar.
O título do livro fala de dias que já passaram e de dias que ainda não chegaram. No entanto, o que realmente pulsa nas páginas é esse território intermediário onde a vida acontece: o presente. É nesse intervalo, tão fugidio quanto essencial, que a escrita de Roberta Cavalcanti se detém. Como se cada texto dissesse, silenciosamente, que a vida não mora no que foi nem no que virá, mas nesse instante quase invisível que atravessa cada respiração.
Ao longo da leitura, tive a sensação de que os fragmentos do livro não pretendem explicar o mundo. Eles apenas o refletem — como faz um espelho quando capta um feixe de luz. E talvez seja por isso que alguns textos permanecem reverberando depois da página virada. Neles, reconhecemos algo que também nos pertence: uma memória difusa, um pensamento interrompido, uma emoção que passou rápido demais.
No fim, Os Dias que Foram e os que Ainda Não Vieram parece nos lembrar de algo simples e ao mesmo tempo profundo: enquanto estamos ocupados demais olhando para trás ou tentando adivinhar o que virá, o presente continua acontecendo — silencioso, luminoso, inteiro — bem diante de nós.
Porque a vida, como o espelho, só sabe refletir aquilo que acontece agora.
Sobre a coluna
Pequenos Ensaios de Leitura é uma coluna do portal Prato de Cerejas dedicada à reflexão literária.
Aqui, cada livro é lido como um território de pensamento, memória e sensibilidade — não apenas como narrativa, mas como experiência.
Os textos buscam aproximar crítica literária e olhar poético, explorando as ideias, imagens e sensações que permanecem no leitor depois que a última página é virada.


