ARMINDA:um rio caudaloso de emoções

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ARMINDA:um rio caudaloso de emoções

Arminda: a mulher que lava, ama, perde — e se levanta

Por Marisa Sevilha Rodrigues

Há histórias que começam como um fio delicado — quase um canto à beira de um rio — e, sem aviso, se transformam em correnteza. Arminda, romance de Vanessa Meriqui, publicado em 2025 pela Editora Patuá, segue exatamente esse curso: parte de uma cena de beleza simples e cotidiana para nos conduzir, com precisão e sensibilidade, ao coração de um dos dramas mais persistentes da sociedade brasileira. À primeira vista, poderia ser apenas a história de uma mulher simples, uma lavadeira do meio rural, que se apaixona por um rapaz da roça, de olhos verdes, enquanto ele se encanta pelos cabelos longos dela, ondulando como as águas do rio onde ela lavava roupas e cantava. Mas, pouco a pouco, o romance revela que Arminda não é apenas uma personagem: é uma força ancestral, uma dessas mulheres brasileiras que carregam a vida inteira nas costas — e, ainda assim, continuam de pé.

A própria apresentação editorial define Arminda como um “romance de formação comovente”, centrado na pergunta: como continuar vivendo diante da perda de quem amamos? A sinopse também destaca que a personagem e Eládio se conhecem à beira da estrada, entre o rio e a lavoura, mudam-se para a cidade grande, têm filhos e enfrentam grandes dores após um espancamento terrível que desestrutura a família.

O romance nasce, portanto, de um deslocamento: do campo para a cidade; do rio para o tanque; da lavoura para a fábrica; do amor inaugural para a brutalidade da sobrevivência. Esse contraste é essencial. Em entrevista, Vanessa Meriqui afirma que quis falar do migrante que chega à cidade acreditando num futuro e o constrói “a duras penas”. Ela também explica que lavar roupa no rio era difícil, mas lavar no tanque da cidade, no frio, no espaço pequeno, torna-se ainda mais simbólico da dureza dessa transição.

É nesse ponto que Arminda ultrapassa o drama individual e se inscreve no contexto histórico e social do Brasil da virada dos anos 1990 para os anos 2000. A São Paulo para onde Arminda e Eládio se mudam não é a cidade das oportunidades luminosas, mas a cidade dos cômodos apertados, das casas geminadas, do trabalho exaustivo, da periferia como destino e como prova. Estudos sobre migração em São Paulo mostram que, nos anos 1990, a Região Metropolitana continuava central nas trajetórias migratórias, mas já marcada por precarização, instabilidade e dificuldades de inserção no mercado de trabalho.

Arminda, então, não lava apenas roupas. Lava a memória da roça, lava a esperança de prosperar, lava o luto, lava a vergonha, lava a violência que os outros tentam esconder debaixo do silêncio familiar. Sua tábua de lavar — depois também a de passar — é instrumento de trabalho, mas também metáfora de resistência. Enquanto Bel, a cunhada, surge como contraponto dramático, entregando-se à indiferença e ao gesto quase teatral de “lixar as unhas”, Arminda permanece vinculada ao trabalho, à dignidade e à tentativa desesperada de manter alguma ordem no mundo.

Mas a tragédia que leva embora os irmãos Antonio, seu cunhado,  e Eládio, o amor de sua vida,  rompe essa ordem. E é justamente aí que o romance se acende. A morte dos homens da casa não encerra a história: inaugura a travessia de Arminda. Inconformada, ela parte em busca da verdade. E essa busca não é apenas policial, familiar ou sentimental. É uma busca moral. Arminda quer saber o que aconteceu, mas também quer compreender que forças invisíveis vinham corroendo aquela família por dentro.

O livro toca, assim, numa das feridas mais profundas da sociedade brasileira: a violência doméstica e seus efeitos transgeracionais. A violência que desgraça mulheres, homens e crianças; que se repete como herança maldita; que passa de pai para filho, de casa para casa, de silêncio para silêncio. Nesse sentido, é importante lembrar que, se a narrativa se situa entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, ela antecede ou tangencia um período anterior à Lei Maria da Penha, sancionada apenas em 7 de agosto de 2006. Antes dela, a violência doméstica era frequentemente tratada como crime de menor potencial ofensivo, o que contribuía para sua banalização.

Por isso, a coragem de Arminda ganha outra dimensão. Ela não se ergue amparada por uma rede sólida de proteção social. Ela se ergue quase sozinha. Sem instrução formal, mas com uma inteligência intuitiva e feroz, Arminda se torna aquilo que tantas mulheres precisaram ser antes que o Estado, a lei ou a sociedade reconhecessem plenamente suas dores: investigadora, guardiã, mãe, viúva, trabalhadora, sobrevivente — e leoa.

Vanessa Meriqui afirma, em entrevista, que sua personagem enfrenta racismo, alienação parental, pobreza e conflitos familiares, e que seu compromisso é escrever “sobre e para mulheres”, colocando-as no centro da narrativa. Essa declaração ajuda a compreender a força do romance. Arminda não é uma história “sobre uma mulher sofrida”, no sentido simplificador da expressão. É uma narrativa sobre protagonismo feminino em condições adversas. Sobre uma mulher que poderia ter sido esmagada pela engrenagem social, mas que encontra, dentro da própria dor, um ponto de insubmissão.

A beleza do romance está também no modo como Vanessa costura — ou melhor, crocheta — esse drama. Há dureza, mas não há exploração gratuita da dor. Há lirismo, mas não há romantização da pobreza. Há amor, mas não há ingenuidade. O rio do início, com seus cabelos, cantos e olhos verdes, permanece como imagem fundadora: um breve paraíso antes da queda. Depois, a cidade estreita esse rio até transformá-lo em tanque. Ainda assim, Arminda continua lavando. Continua cantando, mesmo que por dentro. Continua existindo.

Sem entregar o desfecho, pode-se dizer que Arminda é um romance sobre o instante em que uma mulher comum deixa de aceitar o destino como sentença. É sobre romper o círculo vicioso das violências familiares. É sobre olhar para uma cadeia de dissabores — maridos, esposas, filhos, netos, sobrinhos arrastados pela mesma correnteza — e dizer: basta.

Talvez por isso o livro toque tão fundo. Porque Arminda não pertence apenas à ficção. Ela está nas periferias, nos tanques, nas filas de ônibus, nas casas de um cômodo, nos trabalhos invisíveis, nas mães que criam filhos sozinhas, nas viúvas que não tiveram tempo de chorar, nas mulheres que aprenderam a desconfiar do silêncio. Vanessa Meriqui escreveu uma personagem singular, mas reconhecível. Uma mulher de carne, água, sabão, perda e coragem.

E quando fechamos o livro, Arminda permanece. Não como vítima. Mas como presença. Como essas águas antigas que, mesmo represadas, sempre encontram um modo de correr, de vibrar e de encantar…

Serviço:

Título: Arminda

Ano: 2025

Publicação: Editora Patuá

Preço: R$60,00 (à venda no site da editora Patuá) e na Amazon

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