A sofreguidão das horas???

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A sofreguidão das horas???

Ilustração: Elena Schlegel

É de manhã que a sua fome de amor se acalma.

Se enrola no lençol branco e dorme, nascidocomo se tivesse acabado de nascer;

os raios de sol encortinam-se nos seus cílios e pincelam de dourado o quarto;

e tudo em volta é silêncio e imóvel permanência, 

até o final dos dias.

Como se o tempo não fosse o portador de ruínas,
ainda que também de discernimento.

O tempo que se veste de sol, durante o dia, e de lua, à noite,

para se camuflar com sua idade primeva e inaugural das trevas.

Entre o azul e o lilás do seu manto,

eis um senhor desdentado e vestido de outono,

sem nenhum pudor de suas folhas secas.

Nos milharais da infância, tua têz era sanguínea.

Com o arado em riste, fazia brotar tuas sementes.

Teu sêmen povoava a terra herdada dos seus antepassados,

e tudo era vôo de pássaro e água fresca da fonte.

Agora, está só no mundo.

Tudo em volta é desesperança

e sol quente do meio-dia.
Riso amarelado de demônio, 

meio demente.

Nenhum chapéu para proteger tua fronte.

O suor salgado, machuca-lhe a pele cortada pelas folhas finas do capinzal.

Teus lábios ressequidos buscam o cálice esquecido entre as baldranas,

penduradas no paiol.

Fecha os olhos e finge dormir…

Penteia os cabelos da madrugada em seu colo, 

entre vígilias e despertares abruptos;

os gritos roucos no meio da noite despertam a ira dos ratos,

mas nem sua mãe vem aplacar-lhe os soluços.

O vento barbudo lá fora não ousa um balbucio.

Teus dias já estão arrancados do calendário, bem o sabes,

mas carregas a tua cruz

com a convicção dos homens crentes na sofreguidão das horas,

no amanhecer dos dias que virão depois,

para os teus descendentes.

É de manhã que a sua fome de amor se acalma.

Então, adormece, renascido. 

Marisa Sevilha

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