Como a invenção do livro moldou a civilização que conhecemos

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Como a invenção do livro moldou a civilização que conhecemos

A primeira palavra de que se tem conhecimento na literatura ocidental é “cólera” — originalmente escrita em grego como ménín. O termo abre a a Ilíada, de Homero, autor que se acredita ter vivido na região da Jônia, atual Turquia, no século VIII a.C. Transmitido a princípio de maneira oral, o poema épico que fala da ira do guerreiro Aquiles na Guerra de Troia foi o pontapé inicial para uma história que é a mãe de todas as outras: a origem do livro, recontada em detalhes no instigante O Infinito em um Junco, da filósofa e historiadora espanhola Irene Vallejo. “Os livros sobreviveram por milhares de anos porque foram capazes de se adaptar. Tivemos livros de papiro, pergaminho, papel, e agora também digitais”, explicou a autora em entrevista.

Lançada no Brasil pela editora Intrínseca, a obra viaja à Antiguidade clássica para relatar como a invenção da escrita e o uso dessa tecnologia para registro histórico e literário moldaram o desenvolvimento da civilização tal e qual a conhecemos hoje. Inventada pelos sumérios há 6?000 anos, a escrita nasceu de símbolos complexos desenhados em placas de argila moldadas nas margens dos rios. Batizadas de tabuletas, essas peças foram o embrião do que seriam, posteriormente, os livros. Ironicamente, boa parte dos registros daquela época que restaram vem de peças submetidas ao fogo durante incêndios, já que o calor cozia a argila e tornava a escrita mais resistente aos efeitos do tempo.

Foi no Egito, porém, mais precisamente em Alexandria, que a história do livro se desenvolveu de maneira voraz, ganhando contornos quase lendários. Sob o comando do rei Ptolomeu, no século III a.C., o país se estabeleceu como o grande centro cultural do mundo antigo. Grande parte de tal fama se deveu a um plano mirabolante de seu governante: “Ele queria concentrar em um edifício todos os livros do mundo e disponibilizar essa sabedoria a qualquer mente curiosa”, explica Irene. Para isso, o rei enviou soldados em expedições à Grécia para buscar livros, mandou que confiscassem obras no porto da cidade e convocou estudiosos para traduzir livros para o grego, língua dominante na época. Assim, a Biblioteca de Alexandria se tornaria a primeira a romper as barreiras das coleções particulares e ganhar status de pública.

Isso só foi possível graças ao advento do papiro, que substituiu as placas rígidas por rolos maleáveis de fibra de junco, planta que crescia em abundância nas margens do Rio Nilo. Produzida majoritariamente no Egito, a matéria-­prima era cobiçada no mercado, dando ao império poder semelhante ao desfrutado hoje por grandes produtores de petróleo. Com isso, a Biblioteca de Alexandria floresceu, tornando-se um símbolo do helenismo imaginado por Alexandre, o Grande, ao reunir obras das mais diversas culturas. Até hoje não se sabe quantos exemplares o local chegou a contabilizar: os números vão de 54?800 rolos, segundo Epifânio, até 700?000, na contagem de Amiano Marcelino. Se o Egito lucrou com a ascensão dos livros, Roma tentava imitar a concorrência, desenvolvendo uma literatura encomendada. Cabia aos escravos gregos, bem instruídos, produzir os livros que eram colecionados pela elite local nas vilas romanas.

Ao longo da história, como se sabe, os livros não foram objeto só de amor, mas de ódio. Por razões religiosas ou políticas, autores e obras sofreram perseguições na Antiguidade e Idade Média. A invenção da impressão por Gutenberg, no século XV, ampliou exponencialmente a circulação de livros — mas também a caçada a eles. Foram vítimas das fogueiras da Inquisição e de outros ataques mais recentes: estima-se que os nazistas tenham queimado obras de mais de 5?500 autores, e 188 bibliotecas foram atingidas durante a Guerra da Bósnia — entre elas a de Sarajevo, que perdeu 150?000 títulos raros ao ser atingida por um bombardeio em 1992. A própria Biblioteca de Alexandria foi destruída três vezes, a última delas em 642, quando o comandante árabe Amr ibn al-As teria liquidado os livros restantes a mando do califa Omar I. “O genocídio atinge também as letras, porque nelas sobrevivem uma cultura e uma memória”, afirma Irene.

Com o advento do mundo digital, publica-se um novo título a cada meio minuto. É um volume impressionante: um leitor comum não consegue ler em toda a sua vida o que o mercado editorial produz em um único dia de trabalho. Nunca foi tão fácil e tão difícil acompanhar o avanço da civilização.

Fonte: Revista Veja

Curadoria: Prato de Cerejas

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