Ouça o silêncio sem fantasias.
É tudo um mistério,
parece impossível a misericórdia
diante de tanta miséria,
diante de nossa entrópica sina.
O leão ruge em nossa mente
verdadeiros inimigos,
num quando de liberdade escravizada
por emoções atrofiadas.
Cegos distantes da intuição,
Caminhamos,
enquanto o medo, nosso pai,
impõe-nos limites.
Bons encontros, buscamos,
repudiando o diferente,
doentes do coração
como dragões reinando em morta existência.
Longe do fogo.
Então, por que me urges?
Que tudo passe sem que eu venha
apreciar os teus afrescos,
se não puderes me ofertar
as chaves de teus secretos recônditos.

O espelho do presente
Enquanto lia Os Dias que Foram e os que Ainda Não Vieram, de Roberta Cavalcanti, uma imagem me acompanhava silenciosamente: a de um espelho. Um espelho é um objeto curioso — ele nunca nos permite olhar para o passado nem para o futuro. Diante dele, só existe o instante que acontece agora. O reflexo não guarda memória nem faz promessas. Ele apenas devolve o presente.

