
Resenha Crítica por Marisa Sevilha Rodrigues
Cerca de 99,9% dos brasileiros são aficcionados pelas canções do cantor e compositor Chico Buarque há décadas. Por isso, quando alguém ousa dizer que o “odeia”, no título de um livro, isso pode soar até ofensivo, mesmo que esse ódio venha entre aspas. A força de Eu “Odeio” Chico Buarque de Holanda”, de Fernando Mundim Veloso, já começa, portanto no seu próprio título, que nos arranca da cadeira ou de onde estivermos, para pegá-lo nas mãos e entender, melhor, do que se trata.
Se foi proposital, como ação de marketing, não sabemos, mas o autor, que é advogado e professor universitário em Uberlândia (MG), mostra que também domina as técnicas do marketing, onde a principal delas é provocar o outro e despertar sua curiosidade para ir além. E, neste caso, estamos falando da capa do livro com projeto gráfico assinado pela designer Carla Heloísa e que, passado o susto inicial, nos leva para a sua leitura, impreterivelmente.
Eu “odeio” Chico Buarque de Holanda, publicado em 2024, pela editora Patuá, é um livro de contos, que pode ser lido de um fôlego só, pois a linguagem usada pelo escritor é muito acessível: uma característica dos protagonistas que têm grau de formação básica, expressando-se de forma simplória à exemplo de um ex-DJ fanático por músicas românticas e um serviço ultrapassado de disk-mensagens, uma ex-Miss Rodeio 1994, já de meia idade que busca reinventar-se, como influencer no Instagram, um quase-ex-jogador de futebol que odeia o pai por causa do nome de batismo bizarro e que seria o real motivo por não ter conseguido brilhar nos campos dos melhores clubes, do Brasil, ou internacionais, e assim por diante.
Os contos podem ser lidos separados ou em conjunto, como se fosse um romance, dando continuidade um ao outro, o que se traduz numa outra jogada — de mestre –, do autor, porquê quem lê um o primeiro, acaba fisgado para ler o segundo, o terceiro, e quando percebe, leu o livro inteiro, tamanha a envolvência que ele desperta no leitor, que se identifica com os protagonistas, em suas trajetórias em busca da fama, da estabilidade financeira e ainda, é claro, do sucesso no amor.
Entretanto, apesar de tangenciarem quase todas essas situações, durante suas vidas, eles não conseguem permanecer no topo de suas conquistas, porquê o tempo passa para todos e a vida é feita de impermanências, mas não para esses personagens que pararam no tempo da juventude e, a partir dali, envelhecem, mas não conseguem se encarar no espelho, algoz de suas trajetórias infelizes. O autor explora nessa coletânea temas universais que falam sobre a condição humana e seus paradoxos ao lidar com fama, desilusão, identidade e a eterna busca por significado existencial. Ou seja: questões que abalam a humanidade, desde que o mundo é mundo.
Com sua escrita, aparentemente banal, Veloso revela-se um profundo conhecedor da alma ou psichée humana, como os gregos a chamavam, arrematando os seus contos com os laços do sarcasmo, humor e melancolia, tornando a leitura de Eu “Odeio” Chico Buarque, ao mesmo tempo, instigante e questionadora sobre assuntos universais, embora situados num Brasil pré-internet e redes sociais.
Leitores de qualquer gênero literário ou diferentes idades irão gostar muito deste livro, perfeito para presentear os amigos neste final de ano, no Natal ou festas de amigo secreto. Eu, confesso que gostei muito e me diverti bastante com os personagens hilários criados por Fernando Mundim Veloso neste que é o seu primeiro livro, marcando uma benvinda estréia na literatura brasileira.
Serviço
Livro: Eu “Odeio” Chico Buarque de Holanda
Páginas: 103
Publicação: Editora Patuá
Ano: 2024
À venda no site da editora www.editorapatuá.com.br ou na Amazon
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