Leque de Pássaros

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Leque de Pássaros

meu pai equilibrava-se sobre as correntezas da vida:

em uma mão, trazia um vaso de alabastro e, 

na outra, filtros de sonhos para as dores do mundo.

tinha como mantra desligar o ego,

sermos soberanos, mesmo sendo servos.

entre a corda e a caçamba,

norteava-se sobre cardumes de peixes alados,

pois, de certezas o mundo era bem gasto, dizia;

meu pai colecionava enciclopédias de dúvidas:

_ de ser o primeiro, não fazia caso.

nem de levantar a voz e falar mais alto

( meu pai sabia que tudo era armadilha

                              e cadafalso)

e não era bobo, para dar o primeiro passo.

sábio, não demorou muito para deixar esse mundo

—  de carne e ossos.

Desde então, sempre em agosto, no dia-dos-pais,

aguardo-o pular o muro do meu sono,

e repousar comigo, nos meus sonhos.

minha saudade o atrai com leques de pássaros

que mantenho amarrados

nas janelas sempre abertas

do meu quarto.

no seu abraço forte, eu desassossego.

anoiteço minha cabeça em seus ombros

e amanheço nos jardins do Eden.

juntos, brincamos de quem não somos

e esquecidos de quem fomos.

ele me ensina a fazer cascatas de borboletas

e flâmulas de beija-flores.

ele me fala do paraíso que agora habita,

construído só com boas lembranças.

meu pai me balança na sua rede de cílios,

me banha na água morna

e muito verde dos seus olhos-lagos.

e só assim, me consola de sua ausência.

sentados na relva fresca,

ele me conta que só existimos quando somos alma;

quando não mais choramos, nem temos fome

ou outros tormentos.

quando só o que importa é o aperto de nossas mãos,

suadas de contentamento.

Poema: Marisa Sevilha Rodrigues

Ilustra: Christian Schloé

Oscar Freire (SP), 16 de agosto de 2020.

PS.: Quando começo a datar o poema, percebo a “sincronia”:  hoje faz 20 anos da morte de meu pai, Sebastião Sevilha Rodrigues. Que naquele dia, também era um domingo.

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