Pimenta Rosa

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Pimenta Rosa

Pimenta Rosa

Há vendilhões do templo na minha genealogia;
por isso arranquei raízes de aroeira
em busca do seu poético fruto
doce pimenta rosa
e, com ela, atazanei o seu peixe
cozendo-o em folhas de bananeira
enquanto você dormia em outra redes,
que não a minha;
entre aborígenes & gringos & extraterrestres
caminhei quarenta anos pelo deserto, em busca
do meu pecado original:
encontrei lagartos & formigas desterrados;
anões& feiticeiras & padres & comendadores
e toda horda de seres vivos, vitimados pela tragédia
vinda de cima, debaixo e de todos os lados;
de seus lugares-casas no mundo;
enfiei zilhões de cravos numa maçã
e deixei-a pendurada no guarda-roupa
da nossa casa imaginária;
aguardei que o feitiço virasse contra o feiticeiro,
mas você não voltou ao lugar do crime,
sequer olhou pra trás, na sua trilha solitária.
Os meus caminhos traçados com açúcar
foram lambidos por outras fêmeas,
sedentas de afeto.
Agora, acendo um fogão à lenha
e cozinho o meu amor improcrastinável por você
em fogo-brando e banho-maria.

O NAUFRÁGIO DO NAVIO PRESIDENTE VARGAS

O navio afunda.

Mas quem emerge das águas são as mulheres do Marajó, os pescadores, as lendas, os encantados, a solidão amazônica e um Brasil que raramente aparece nos jornais, nos romances ou nos debates nacionais.

É exatamente isso que acontece durante a leitura de O Naufrágio do Navio Presidente Vargas, de Rosieli Mendes Cruz.

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O espelho do presente

Enquanto lia Os Dias que Foram e os que Ainda Não Vieram, de Roberta Cavalcanti, uma imagem me acompanhava silenciosamente: a de um espelho. Um espelho é um objeto curioso — ele nunca nos permite olhar para o passado nem para o futuro. Diante dele, só existe o instante que acontece agora. O reflexo não guarda memória nem faz promessas. Ele apenas devolve o presente.

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