Uma memória embalaustrada pelo tempo

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Uma memória embalaustrada pelo tempo

Em Strelitzia Mater, Lucimar Zanzoni transforma cartas, receitas, objetos e lembranças deixados pela mãe em uma delicada arqueologia afetiva sobre maternidade, perda e ancestralidade.

Há pessoas que conhecemos durante uma vida inteira sem jamais conhecê-las por inteiro. Talvez isso aconteça especialmente com nossos pais. Acostumamo-nos a enxergá-los pelo lugar que ocupam em nossa história e quase nos esquecemos de que, antes e para além de nós, existiram outras vidas dentro daquelas vidas.

Houve a menina. A jovem. A mulher. Os amores, os medos, as alegrias, as perdas e também as culpas que talvez jamais tenham chegado aos filhos.

É por uma dessas frestas que Lucimar Zanzoni entra em Strelitzia Mater.

Depois da morte da mãe, uma caixa esquecida na antiga casa da família encontra, por caminhos quase fortuitos, a maneira de voltar às mãos da autora. Dentro dela estão cartas, cartões, receitas, recortes, convites e lembranças guardados ao longo de décadas.

Lucimar começa a percorrer esses vestígios e, pouco a pouco, reencontra não apenas a mãe que conheceu, mas a mulher que existia para além da maternidade. Cada papel devolve um cheiro, uma cena, um gesto: a comida feita em casa, a mobília bonita, as flores, os aniversários dos filhos, as festas de Natal, os parentes, os pequenos rituais que davam forma à vida familiar.

Aquilo que poderia parecer um conjunto de quinquilharias domésticas adquire, assim, outro significado. São memorabilia. Fragmentos materiais de uma existência e de uma mulher que amava profundamente a vida, a casa e a família.

Mas entre essas lembranças emerge também a grande ferida daquela história.

Em 1966, uma das filhas, com apenas dez anos, adoece repentinamente e morre oito dias depois. A perda rompe a aparente segurança daquele mundo familiar e confronta a mãe com a impermanência das coisas, das pessoas, da própria vida.

Ela sofre, sente medo, duvida, carrega culpas. Mas precisa permanecer de pé. Ainda há um marido, outros filhos, uma casa pulsando ao redor dela. E é também na escrita que parece encontrar um porto seguro para atravessar a dor e continuar.

Entre os papéis encontrados tantos anos depois está talvez o mais doloroso deles: uma carta dirigida à filha morta, na qual a mãe pede perdão por acreditar que não percebera a tempo a gravidade dos primeiros sinais da doença.

É quando compreendemos que aquela caixa não guardava apenas coisas. Guardava uma existência.

Há, por isso, algo de uma escrita a quatro mãos em Strelitzia Mater. Lucimar escreve no presente, enquanto a mãe lhe responde do passado por meio das cartas, das lembranças e da voz que a filha lhe restitui literariamente. Nesse encontro entre gerações, a autora pode contemplá-la não apenas como mãe, mas como mulher — com seus medos, renúncias, alegrias, dúvidas e uma vida interior que os próprios filhos desconheciam.

E é justamente aí que os pequenos objetos ganham outra dimensão.

A receita guardada. O cartão de Natal. O recorte de revista. O convite de casamento. A lembrança de aniversário. Os registros das chegadas e das despedidas.

Juntos, esses fragmentos constroem uma espécie de arquitetura da maternidade. São pequenas peças com as quais uma mulher organizou sua passagem pelo mundo: nascimento, comida, festa, casamento, doença, morte e recomeço.

Quantas mães e avós não deixaram atrás de si caixas semelhantes? Quantas gavetas ainda guardam receitas escritas à mão, fotografias sem data, cartas amareladas, santinhos, flores secas dentro de livros e pequenos objetos cujo valor talvez ninguém, além de quem os guardou, saiba explicar?

É nesse momento que Strelitzia Mater ultrapassa a memória particular de uma família.

Porque todas as famílias possuem sua arqueologia. E nossa ancestralidade também é feita dessas coisas aparentemente insignificantes que alguém, por amor, medo, saudade ou simples desejo de permanência, decidiu não jogar fora.

O título do livro acrescenta a esse inventário uma imagem floral. Mater, mãe. E talvez possamos olhar para os fragmentos recolhidos por Lucimar como um buquê composto ao longo de uma vida: cartas, receitas, festas, dores, flores, filhos, perdas e afetos reunidos agora pelas mãos da filha.

Ao escrever sobre a mãe, Lucimar Zanzoni ergue para ela um altar de palavras. Mas acaba também homenageando tantas mulheres cujas histórias raramente chegaram aos livros: mulheres que criaram filhos, cuidaram de casas, cozinharam, cultivaram jardins, fizeram festas, enfrentaram perdas, tiveram medo e, apesar de tudo, continuaram vivendo.

Mulheres aparentemente comuns que sustentaram mundos inteiros.

Talvez seja isso que herdamos daqueles que partiram: fragmentos. E cabe aos que ficam descobrir o que fazer com eles.

Lucimar escolheu transformá-los em livro.

E assim, em Strelitzia Mater, uma memória embalaustrada pelo tempo encontra finalmente uma fresta por onde voltar à luz.

Serviço:

Livro: Strelitizia Mater

Autora: Lucimar Zanzoni

Editora: Polifonia

Ano: 2025

Strelitiza Mater

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